domingo, 31 de maio de 2020

A vontade de fazer-se comunidade...

Estou em casa. Minha filha brinca no quintal. Estou aqui admirada pelo desenrolar da manhã. Acordei pensando que hoje é dia de Pentecostes e fui ler um cadinho para me inspirar. Mas não é na leitura que encontro o que buscava. Procuro pela casa algo, mas é ali, diante de meus olhos, bem pertinho, que encontro.
Enquanto comemos pão feito em casa e tomamos café quentinho, vemos formigas a procurar alimento. Vem à memória uma música de formigas recém-criada por uma amiga de todas as épocas, professora da escola. É uma música que fala sobre formigas e o seu caminho incansável. Escutamos e cantamos, ali diante das formigas, neste céu de outono. E minha filha diz: “Mãe, posso dar um pedacinho de seu pão para as formigas? Elas estão trabalhando muito. Imagina a fome que estão sentindo”. Quando eu digo que sim, minha filha pega farelos de pão e os esmigalha mais ainda e oferece no trajeto das formigas. E fica ali a observar. A alegria toma conta dela quando vê que uma formiga levar um pedaço de pão. E ela diz “pai, pai, vem ver, a formiga está comendo do pão que você fez, eu dei um pedacinho para elas!”. Seus olhos vibram de contentamento e ela acompanha atenta o trajeto das formigas. E logo diz: “elas estão levando para comer todas juntas em casa”. Vai tirando os empecilhos do caminho e esfarela ainda mais o pão, “está muito grande para elas”. Uma leva um coquinho pequenino. “Imagina mãe, ela deve estar levando para tomar a água que tem dentro”. E continua ali por um bom tempo, vendo as formigas se encontrar, desviar, ajudar. Uma amiga da rua, desta rua pequenina sem saída aqui na zona rural a acompanha no encantamento. E logo aparecem pás de mão, balde e o desejo de fazer um formigueiro. “Vamos fazer uma experiência”, dizem elas.





Eu estou aqui olhando o movimento todo. Uma vontade nascendo, feita de terra, de galhos, de pão, de cinzas… Uma vontade que brota nas mãos e ganha vida. E aí percebo. Eu vejo. Sim, toda a força arquetípica de Pentecostes se fazendo diante de meus olhos, expressa num desejo de formigueiro. Num brincar de criança. Entre o céu e a terra.

É neste lugar, em nossa casa, que o Relicário de Luz nasceu há quase sete anos. Neste mesmo quintal, com estas mesmas duas crianças que agora brincam com vontade de formigueiro. E que desejo é este de fazer formigueiro, de fazer-se comunidade oferecendo o que se é, a sua maneira de expressar-se no mundo, com sua voz única, sua própria língua, na busca de um alimento para todos? E fui pensando em cada família do Relicário, em cada amigo, em cada professor, em cada pessoa que ofereceu suas mãos para a construção de um lugar para o Relicário habitar. Do primeiro dia, do primeiro contato, dos encontros que tivemos ao longo destes seis anos de história. Um calor fez-se em meu peito enquanto escrevo. O que será que há em cada família que ressoa com o Relicário? Que fio é este que liga cada uma destas pessoas nesta teia?



Neste tempo de recolhimento, de desafios econômicos e sociais, de cada família em sua casa, essas perguntas ressoam ainda mais fortes. E sinto uma profunda gratidão ao ver o esforço que cada família faz para manter o espaço do Relicário e tudo o que o compõe, de maneira fraternal. Cada um com suas próprias forças, como uma formiga a manter o formigueiro. Mas o que mais me toca, o que me preenche, é saber que o Relicário ressoa em cada lar. E é por este motivo que cada um oferece o que tem para manter este espaço. O que cada um oferece não é para pagar uma mensalidade, mas para manter uma ideia, uma vontade expressa no mundo. E é esta força espiritual, é esta necessidade, que faz com que o Relicário exista. Quando tudo isso iniciou, num dia de apreensão eu falei para o Alberto, “e se não conseguirmos manter o espaço físico do Relicário”? Ele olhou para mim e disse “a gente constrói tudo de novo”. Tudo de novo. Para quem nos acompanha sabe que construímos um novo espaço e nos mudamos este ano. Tudo de novo, ele disse. E eu lembrei, eu vi, ali, naquele dia, que o Relicário existe em cada um de nós. Somos o espaço físico mais precioso desta vontade que leva o nome de Relicário de Luz.



Hoje, dia de Pentecostes, meu sentimento é de profunda gratidão. Por todos aqueles que já estiveram neste lugar. Por cada criança, cada família, cada avô e avó, cada professor, cada amigo, cada visitante que aqui esteve. Por esta comunidade. Nossa história fez-se e faz-se com o fio de cada um de vocês, de cada um de nós.

Gratidão à Ana Paula, minha filha, primeira criança desta escola. Ao Alberto parceiro nesta jornada e quem tem a força de tornar este sonho realidade. Gratidão ao meu pai e minha mãe que fizeram parte desta história com suas próprias mãos e cuidado. Gratidão à minha irmã, que se tornou professora e mãe desta escola. Gratidão ao meu irmão por fazer parte com suas mãos.

Meu desejo mais profundo, é que hoje, ao pensar no Relicário uma luz possa fazer-se em você!

Gisele Becker
Cofundadora, Cogestora e professora da Escola Relicário de Luz.

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