quinta-feira, 16 de abril de 2020

Vejo tantos Relicários por aí à brotar!

Sol. Céu azul. Em casa. Vou andar na grama fresca a lembrar a potência que foi o dia anterior. Me emociono. Agradeço. Respiro profundamente. Ah! Quanto tempo fazia! Sinto-me bem. Cada olhar, cada coração, cada sorriso, cada vontade de abraço, cada aconchego de carta, de chá, de desenho. Sinto-me Relicário de lugares sagrados. E vejo tantos Relicários por aí à brotar. Até que meus olhos veem... Me aproximo. A emoção toma conta de mim. São brotos surgindo na terra. Brotos? Vou contar.


O tempo de recolhimento se fez imperioso. Então respeitamos. E aí a pergunta? Como escola, o que temos para oferecer? Dois dias antes de tudo parar, do decreto sair em nossa cidade, teve aniversário na escola. Como sempre fazemos. Um bolo, as bandeirinhas, a história que nos recorda da jornada da criança com a sua família, a cantiga e o presente. Tudo singelo, com os mesmos movimentos, com a vivacidade do presente, e repleto de significado. À tarde veio um recado da mãe, agradecendo, estava se sentindo perdida com as últimas notícias e ter estado na escola, em algo tão profundo a fez bem. Este fato nos fez ver o que podíamos oferecer como escola, num ato de educação.






Então quando tudo parou, nos reunimos com os professores da escola para montar uma sacola encantada para as crianças do fundamental e para dançarmos em roda. E ali a certeza. Era preciso nos alimentar, nos cuidar para oferecer alimento e cuidados. E a partir daquele dia, fomos enviando cadinhos de aconchego. A cada dia um, em doses homeopáticas para serem pingadas na alma. Pingos de luz uma mãe nos diria mais tarde. E o que enviamos? O que estávamos vivendo em nossas próprias casas: contar histórias, cantigas, cantinhos de época, o fazer o pão, o plantar, o costurar, o dançar...  Nenhuma atividade proposta. Continuávamos fazendo como é no Relicário, acreditando que só aquilo que somos com verdade, o que fazemos com inteireza, é capaz de ressoar e de chegar até o outro, num potente ato de educação. Não eram propostas de "atividades", mas sim o que BROTAVA em nós e nos alimentava sendo servido de alimento para as famílias do Relicário.


E para as crianças do ensino fundamental? Para aquelas que enviamos uma sacola encantada com chás, livro com histórias, um caderno costurado por eles de folhas em branco, uma carta, uma costura, um chá, uma flauta, lápis coloridos? Uma mãe nos disse que foi como um barquinho cheio de possibilidades...


Aguardamos alguns dias para ver o que dali poderia brotar... Sim! Tudo leva tempo. Não é possível semear hoje e acreditar que vai colher no dia seguinte. Duas semanas depois nós ligamos para cada criança, numa chamada de vídeo, para ver seu rosto, sua cor, sua vitalidade. Para ouvir sua voz, sua tonalidade, sua intensidade. Para saber como estavam e o que tinham para nos contar, nos mostrar. Entramos em suas casas conduzidos por suas mãos: ouvimos histórias, entramos em cabanas na sala, vimos cantinhos, músicas tocas em flauta e teclado, brincadeiras de quintal, cadernos com registros coloridos, cadernos em branco, costuras, dobraduras, pedras e suas histórias, flores... Sua casa, seu ninho, sua família, seu quarto, seu lugar. Puxa! Para sair de casa um dia há que se reconhecer e desvendar cada cantinho. Que arquétipo poderoso: casa, lar, berço, útero, casulo, raiz, semente. Quanto conhecimento do mundo há aqui. Vamos desvendar a casa, a nossa casa e convidar as famílias, as crianças a fazer uma jornada por sua casa? Cada um a seu modo, a seu tempo, do seu jeito, como for possível.


A abertura da sacola encantada na casa da Sophia


A costura na casa do Victor

E aqui algo nos veio de maneira intensa: quando o futuro é incerto, quando não é possível avistar o caminho ao longe há que se pisar com os pés firmes ao chão, enraizar, fortalecer nossas bases. E aí veio com força este conhecimento sistêmico, vivo: a força de nossa ancestralidade. As professoras foram adentrando as histórias de sua próprias famílias porque sentiam vontade intensa de fazer este movimento. E lançamos o desafio para as crianças com a mesma certeza: de que somente o que é vivo e intenso em nós pode ressoar no outro. Vamos fazer uma árvores genealógica? Original, do seu jeito? E acreditem: apareceram fotos e histórias de família, biblioteca de livros que contam as histórias de família, árvores de folhas e galhos, de madeiras, de casinhas feitas de pano, de argila, trabalhos do dia-a-dia feito em família... E nós aqui acompanhamos por fotos, vídeos e áudio um pouquinho do que aconteceu em cada família. O importante não era nos enviar a árvore pronta, "perfeita", com todas as informações. Mas sim acompanhar o processo de criação, as descobertas...


O cantinho da ancestralidade na casa da professora Gisele


A pintura na árvore na casa da Laura


A costura dos livros da biblioteca da família na casa do Davi


A árvore de argila da casa do Arthur


A arvore de folhas na casa da Sofia


As casinhas da família na casa da Ana Paula


A árvore na casa do Luigi

Ninho. Semente. Uma das professoras, que tem dedo verde e estava plantando em vasinhos em seu apartamento trouxe um novo desafio: plantar e acompanhar uma semente. Este veio acompanhado de histórias, poemas, desenhos e cantigas que envolvem o ato de plantar. E vou contar para vocês que em muitas casas sementes começaram a brotar e olhos admirados a acompanhar, ora das crianças, ora dos adultos. Sim! Uma semente pequenina tem tanta vida.


Brotos na casa da professora Dilneia


Lendo e cuidando dos brotos na casa da Lorena



O registro do broto na casa da Lorena 


O registro do broto na casa da Helena Spiguel


O plantio na casa da Helena Longen


Os nomes para as sementes na casa do Davi

Semente. Farinha. E logo o desafio de ir para a cozinha fazer pão com receitas de família. Cheirinhos de pão feito em casa que saíam das casas dos professores e adentravam os lares do Relicário. 


O pão feito na casa da Ana Paula


O pão na casa da Helena Spiguel


O pão na casa da Beatrice

Família. Tesouros. Veio também o desafio de vasculhar tesouros pela casa. Este veio pelas mãos e voz de uma professora que é perita em encontrar tesouros escondidos. Ela foi pouco a pouco mostrando os achados de sua própria casa... E sabe que em algumas casas este desejo forte chegou.


Registros de Tesouros na casa do Kauê

Tesouros. Histórias. O nosso último convite foi para que as crianças nos lessem ou contassem uma história que tivessem lido ou escutado para partilhar... Este convite veio acompanhado de uma história lida por uma das crianças, em seu próprio lar.

Outras sementes brotaram nas casas sem terem sido semeadas por nós. Ou foram, em algum tempo longínquo? Ou vieram da própria família? Ou deste próprio tempo? Ou de tesouros escondidos em casa criança? No fundo, não importa de onde veio. Importa é a potência de vida em que se transformou. De cozinhar pastéis com a vó, de acampar, de um spa em família, de ler contos de fadas, de pular elástico, de ver o que há na sua janela, de criar presentes para a família, de "vender" pedras, de desenhar, de pintar ovos, de colher folhas pelo jardim, de copiar todas as letras que encontra, de ler tudo o que vê, de contar uma história, de inventar música, de tocar flauta na janela para os vizinhos, de cozinhar com o pai, de se pintar de palhaço, de colher ervas do quintal e oferecer aos vizinhos, de pular amarelinha, de fazer poemas, de fazer uma casa de papel, de criar ritmos com copos, de fazer prateleira, de ter uma horta em casa...


 As pedras e suas possibilidades na casa do Vitor


Um presente projetado e feito pela Sofia para o aniversário de seu pai


Escalda-pés na casa do Caio com a mana Giovana


 Delicias na cozinha na casa da Helena com seu irmão João Davi


As folhas e suas possibilidades na casa do Breno com sua irmã Amanda


 Um coelho de papel feito pelo pai da Alice


 Marcenaria na casa do Davi


Colorindo os ovos na casa da Alice


Barquinhos de papel na casa da Laura 


Aquarela "vivas" na casa da Beatrice


Marcenaria na casa da Helena com seu mano João


Ervas para escalda-pés preparada pela Beatrice e oferecidas aos vizinhos


 Culinária na casa do Eduardo com seu irmão Mateus


Crochê na casa da Sophia


O registro de uma receita feita na casa da Ana Paula


Uma receita feita na casa da Lorena



Ontem convidamos todas as famílias a buscarem no Relicário o que o Jonjoca havia deixado. Jonjoca é um coelho sapeca, que todos os anos (sem falta), nos visita nesta época de outono, trazendo um presente pequenino. Devido ao tempo de recolhimento, tomamos todos os cuidados: de máscara, sem toques, sem abraço, sem descer do carro, no estacionamento. Nosso recado dizia: "de olhos nos olhos, de coração para coração". Cada família foi chegado. Em alguns carros a família inteira. E em cada carro um coração: desenhado, pendurado, ofertado. Sim! As famílias combinaram de ir ao Relicário com corações. Alguns corações foram pintados de vermelho intenso, outros coloridos, outros escrito: vai passar, tudo vai ficar bem, da nossa família para a família do Relicário, Relicário de amor e num deles todos os nomes dos professores. Todos! Sem exceção. Sem deixar ninguém de fora. E vieram também desenhos, cartas, flores, chocolates, chás, ervas amarradas cuidadosamente para escalda pés.






Eu voltei para casa, minha casa, meu lar, radiante, refeita, me sentindo cuidada, abraçada, vivaz, alimentada, fortalecida e com a certeza que em cada lar um Relicário se fez. As sementes haviam brotado em todos nós. Os olhos me contavam de nosso vínculo. Vínculo este tecido a cada dia, com desafios, com dúvidas, com força, com determinação... Vínculo este que se fortalece no subterrâneo, nas profundezas, em nossos sonhos noturnos, em nossa alma, em nossos corações.


O broto pelo olhar fotográfico da mãe da Lorena, Andressa Correa.

Texto escrito por Gisele Becker.
Cofundadora, gestora e professora da Escola Relicário de Luz.
16 de abril de 2020

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por deixar o seu comentário e enriquecer ainda mais o nosso trabalho.